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Autor Tópico: O "Ventura"  (Lida 290 vezes)
manloca
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« em: 30 de Janeiro de 2012, 16:58:01 »

O “VENTURA”

Sempre que visito a nossa terra e passo no lugar da Margonça, vêm-me à memoria a figura inesquecível do Sr. Ventura Cardoso, morador naquele lugar entre os anos 40 e 60 e ai mesmo proprietário de uma tipografia.
Quando o conheci era já um homem de meia idade, de porte imponente, com uma cara larga onde sobressaiam os olhos vivos, recobertos pelas espessas sobrancelhas, e um sorriso amigável, por baixo de um bigode farfalhudo e pintado de branco, tal como a espessa juba, que penteava para trás, e lhe dava o aspecto leonino que o identificava fisicamente com o célebre escritor Hemingway, seu contemporâneo.
Não trago aqui esta comparação por acaso... Para quem conhece a vida aventurosa e boémia do escritor, a vida boémia do Ventura , guardadas as devidas proporções , compara-se em muitos aspectos com a dele... e se Hemingway se tornou famoso pelo seu talento de escritor, baseando-se nas experiencias que viveu na sua vida acidentada, o Ventura tornou-se famoso, entre os que o conheciam, pelo seu imenso talento como contador de estórias e animador de festas...
A sua oficina de tipografia funcionava num edifício à face da “estrada nacional” ( hoje rua José Maria Castro Lopes Jr.), em frente da loja do celebre Luís Borges, (um dos fundadores do CDC-Clube Desportivo de Cucujães), onde paravam as camionetas “de carreira”, que ligavam a vila com as cidades importantes do pais...
O edifício, de rés-do chão e primeiro andar, pertencia ao sr. José Maria Lopes da Costa e tinha um estilo interessante e único na freguesia, pois era inspirado no chamado estilo “Art Nouveau”, pintado de branco com largas janelas de armação metálica, cantos arredondados a lembrar um navio e uns degraus ao longo da fachada. A oficina ocupava uma parte do rés-do chão, e o sr. Ventura habitava um apartamento no primeiro andar com a família (a esposa e dois filhos : o Celestino e o “Tura”). Foi demolido nos anos 70 para a construção da “variante” -N1.
Não conheço a história da fundação da tipografia, nem como a família se veio instalar ai.  Sei que ao principio foi associado com um Sr. Cândido Pereira, oriundo de uma família de Oliveira de Azeméis, que chegou a habitar o outro apartamento do primeiro andar.
Cucujães teve uma influência significativa no desenvolvimento das artes tipográficas e na formação de técnicos de tipografia na região, em grande parte devido ao estabelecimento da “Escola Tipográfica das Missões”, (quem ira escrever a história dessa instituição ..?) donde saíram técnicos qualificados, que se estabeleceram mais tarde por conta própria, e que forneciam a imprensa regional e as necessidades da industria e comércio locais.
Só no lugar da Margonça , quase em frente uma da outra, funcionavam duas tipografias : “Ventura” e “Ramalhosa” , em plena competição...
O Ventura (que tinha uma reputação de excelente técnico de artes gráficas), tinha clientes por toda a região, e mesmo para além, em Lisboa e no Porto, e ocupava-se do “marketing”, usando as suas qualidades de bom comunicador e do seu feitio folgazão e boémio. Os clientes adoravam vê-lo chegar, com a sua bagagem de anedotas e histórias picaras, e cada sessão de venda prolongava-se por longas horas de conversa e por vezes num almoço ou jantar, pois o tempo não contava quando o Ventura aparecia...
A vida noturna era uma das suas especialidades, e era conhecido em “boîtes da noite” por todo o pais e mesmo no pais vizinho, onde se deslocava frequentemente com amigos... (tal como o Hemingway...)
Contava-se que por vezes parava na estrada, em frente a sua casa, um cliente , ou um amigo, e convidava: “Ó Ventura, queres vir até Madrid ..?”  O Ventura pegava no casaco e saia pela porta fora, esquecendo-se de avisar a pobre esposa que ficava esperando por ele para jantar...até receber um telefonema tardio ... no dia seguinte...avisando que estava visitando um cliente...
Parece que mesmo nessas longínquas paragens a reputação do Ventura estava feita... e por isso os amigos o procuravam para essas visitas “de negócios “, sabendo que  o êxito da recepção seria garantido com a presença de tal “animador”...
A alegria do Ventura, como acontece frequentemente na vida era contrabalançada por um aspeto sombrio: o destino dos seus filhos. O “Tura” ( só o conheci por este nome) trabalhava na tipografia do pai, mas sofria de um atraso de desenvolvimento mental, que o limitava na vida social e profissional. O Celestino era um estudante brilhante que seguiu para o Porto para a Universidade. De convicções fortes, envolveu-se na política tal como muitos estudantes responsáveis daqueles tempos onde tal atividade, fora dos parâmetros da ditadura, era tabu, e foi preso pela policia política (a PIDE), foi torturado e teve a carreira escolar e profissional comprometidas. Não sei o que foi feito dele...
Tudo isto fazia certamente sofrer o Ventura e pode explicar o seu desejo de evasão que o arrastava para a vida boémia, onde as responsabilidades e a triste realidade se diluíam no champanhe , nas estórias e nas amizades fortuitas...
Penso nele e nas sua “juba” branca que se agitava com as suas gargalhadas , e cada vez que passo na Margonca, pelo lugar onde morava o Ventura, envio um convite mudo :“Ó Ventura ! Queres vir comigo...?”
« Última modificação: 30 de Janeiro de 2012, 17:58:37 por manloca » Denunciar ao Moderador   Registado
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