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Autor Tópico: Os moinhos do Couto  (Lida 1994 vezes)
manloca
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« em: 11 de Dezembro de 2008, 22:14:01 »

O Couto de Cucujães é banhado por três rios: O Antuã, o rio “dos Tremoços” e o rio Cercal.

O maior é o Antuã, que vem lá da serra de Romariz e vai terminar perto de Estarreja, na Ria de Aveiro.

O rio “dos Tremoços” vem dos lados de Arrifana. Talvez mesmo de Cesar ou de Fajões e junta-se ao Antuã no lugar de Moinhos, debaixo da ponte do comboio.

O Cercal vem de S.Roque, dá a curva por trás das Cavadas, no lindo lugar da Curva, e desce pela Ponte de Cavaleiros, pelos campos que são já de Santiago de Riba-Ul, até se juntar ao Antuã no sitio dos Moinhos, antes de chegar à Tóca.

Todos estes rios são hoje poluídos, principalmente os dois primeiros, que atravessam as zonas industriais de S.João da Madeira. O Antuã teve sempre a água com um aspecto ferroso, o que era atribuído à contaminação que sofria nas minas do Pintor, em Nogueira do Cravo.

O Cercal tinha trutas até ao fim dos anos sessenta e lembro-me de tentar a minha chance na pesca, sem grande sucesso... De vez em quando os "pescadores" locais atiravam umas "bombas" de foguetes para o rio e lá apareciam as trutas mortas de barriga para o ar...

Um dos passatempos que nos dava imenso prazer, em miúdos, era ir passear aos domingos até ao Cercal, e apanhar os peixinhos minúsculos com as mãos, para os por num vaso de vidro com água...

O Antuã entra no Couto na Margonça, passa debaixo da “variante”, atravessa os campos da Pica, onde uma bela ponte romana (restos da "via bracarensis"...?) o cobre, e chega à “Angola”, a antiga praia popular da aldeia (hoje infelizmente inacessível ao público).

A seguir repousa um pouco num açude, dando de beber pela "levada" à ex-Fábrica do Papel, e recebe as águas do rio “dos Tremoços”, antes de se porem os dois a cantar ao descer o açude sob as pontes gémeas do caminho de ferro e da estrada de Ovar...

Dai para baixo é uma cantoria até à Tóca, onde serena o seu curso, e continua para Santiago, atravessando o que era dantes uma das paisagens campestres mais belas da nossa terra...!

Com tantos rios a correrem pelo vale, o Couto de Cucujães era antigamente um lugar ideal para os moinhos.
E havia tantos nesta zona, que o vale ganhou o nome de Moinhos, que ainda conserva hoje, até que as gentes o esqueçam...

Ate aos anos 50 havia vários  lavradores na vila que produziam milho (daí a tradição das “desfolhadas” que ainda hoje se comemoram ...) e entregavam esse milho aos moleiros para ser transformado em farinha, recebendo este uma parte da farinha como pagamento. 

Os Moinhos começavam no Buraco, onde logo abaixo da Casa Grande havia um ou dois.

Lembro-me bem de os ver a funcionar, operados pela família Tarré, e cada vez que íamos às Cavadas tínhamos que atravessar a "levada", onde a água corria bem forte, por cima de antigas mós de pedra que serviam de ponte...

Quando trabalhavam, a água atravessava o moinho e saía furiosamente por três buracos do outro lado, fazendo girar a toda a velocidade as rodas do moinho, com pás de madeira horizontais, onde encaixavam os eixos do mecanismo que movia as pesadas mós de pedra...

Uma das nossas brincadeiras era atirar um pauzinho á água, vê-lo desaparecer debaixo da casa do moinho, e ir a correr do outro lado para vê-lo sair das pás...

O edifício ainda existe hoje mas a instalação foi modificada pelo Sr. Zé Maria “dos Metros “ que substituiu as mós por turbinas eléctricas. O progresso...

Um pouco mais abaixo, já nos campos da “Angola”, havia um outro moinho, que, na minha ultima expedição, há uns trinta anos, parecia ainda conservar a sua instalação, menos as mós.

No rio Cercal, no Lugar da Curva, sitio idílico antes da construção da "variante", havia um bonito moinho, que creio ter pertencido ao Sr Álvaro Costa.

O primeiro moinho do rio dos “Tremoços” aparece mesmo em frente da estação dos caminhos de ferro, num pequeno edifico, hoje abandonado e coberto de silvas, no meio dos campos, do lado da escola primaria ...Creio que pertencia á família Manta.

O segundo, que eu ainda vi em funcionamento, era logo abaixo da antiga garagem do Sr. Zeferino, junto à via férrea, onde morava há muitos anos a guarda da linha, e era explorado pelo Sr. Joaquim, marido da Sra. Ester, que foi "encarregada" da fábrica do papel...

A antiga fábrica do papel, pertencente a família Castro Lopes, foi originalmente um moinho de farinha.
Aliás o processo de fabricação do "cartão" utilizava igualmente a energia hidráulica e as mós de pedra para moer o papel a reciclar, eram idênticas às dos moinhos de farinha.
E havia aí também um moinho de "raspa", que moía ossos para os transformar numa espécie de farinha utilizada como adubo natural...

A jusante da ponte do caminho de ferro havia mais cinco moinhos, todos em funcionamento até aos anos sessenta!

Na margem direita do Antuã, logo debaixo da ponte do comboio, saía uma "levada" que alimentava um moinho, situado  na curva do rio, aonde se acedia por um caminho que saia da estrada para Vila Cova.

Logo a seguir, e do mesmo lado, e alimentado pela mesma "levada", havia o moinho da "Senhora Mestra", mesmo em frente às janelas do Monte-Meão, e onde as águas cantavam alegremente por entre as pedras do rio...

Ao lado da casa passava um caminho que atravessava a ponte de madeira, e por onde se chegava à "Fonte dos Amores", deitando uma água boa e fresquinha que nunca faltava, mesmo nos Verões mais secos, e que abastecia toda a vizinhança, além de servir de inspiração aos parzinhos de namorados ...

Ao pé da fonte ficava o meu moinho preferido : o do Sr. Alberto Moleiro, personagem simpática e imponente, membro da Confraria do Santíssimo, e dono de uns bigodes retorcidos para cima à antiga...

Era lá que íamos ver os patos e gansos, que o Sr. Alberto tinha sempre em quantidade, e que nadavam alegremente no rio, à volta do moinho.

O Sr. Alberto explicava-nos que a força da água que entrava pela "levada" empurrava umas rodas munidas de pás com tanta força que as grandes mós de pedra se punham a rodar dentro do grande tanque de pedra.

Despejava dentro dum recipiente de madeira os sacos de milho que os lavradores lhe traziam e havia um mecanismo que deixava cair o milho quase grão a grão dentro do grande tanque das mós onde o milho era esmagado e transformado em farinha e em "farelo".

O "farelo" era uma parte que saia mais grossa, menos esmagada, e que vinha da casca dos grãos de milho.

O moleiro utilizava uma "peneira" para separar o "farelo" da farinha e metia-os em sacos separados, um para os animais e o outro para os humanos...

Todo o moinho, e o Sr. Alberto eram cobertos de pó branco de neve, e no ar havia um cheiro característico de farinha queimada...

O barulho dentro do moinho era ensurdecedor!

O ruído da água a passar furiosa pelas pás misturava-se com a vibração do pesado mecanismo do moinho e tudo tremia à nossa volta...!.

Tudo aquilo era deslumbrante para nós,  miúdos, mas fazia um pouco de medo...

Felizmente a calma do rio e a beleza luxuriante da paisagem, com o céu azul a contrastar com o verde dos pinheiros e do mato servia de contrapeso aos nossos receios e convencia-nos sempre a voltar para ver os patinhos a brincar e a nadar no rio...

Havia mais dois moinhos, que ainda existem, abaixo do Sr. Alberto : um abaixo da casa dos Valenças, o moinho da "Tóca" que foi explorado durante algum tempo pelo Sr. Albino e outro do outro lado do rio que creio que foi explorado pela família Grangiao (?).

Os moleiros distribuíam a farinha em pequenas carroças, de rodas altas, chapeadas a ferro, e puxadas por cavalos.

Eles e o azeiteiro eram os proprietários dos únicos cavalos que havia na aldeia, o que fazia deles uma espécie de heróis para nós, miúdos, habituados a admirar os "cowboys" e os "índios" nos seus cavalos rápidos, a correrem as pradarias aos tiros, nos filmes de domingo no cinema do Sr.Sadi...

Ver o Sr. Alberto Moleiro passar, direito e imponente, com os bigodes retorcidos e todo coberto do pó branco da farinha, no alto da sua carroça puxada por um belo cavalo castanho, carregada de sacos branquinhos de farinha era um espectáculo impressionante...

Já vai longe o tempo dos moinhos e as pessoas da aldeia hoje nem mesmo olham para os rios que passam no vale...

É pena...

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ddm
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« Responder #1 em: 12 de Dezembro de 2008, 22:11:06 »

Texto simplesmente fabuloso.
 É admirável a forma com que relata factos históricos, certamente bem presentes na memória de muitos cucujanenses.

Parabéns!

Um abraço
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manloca
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« Responder #2 em: 17 de Dezembro de 2008, 02:09:22 »

Para ilustração das gerações mais novas e registrar memórias doutros tempos ligadas aos moinhos do Couto de Cucujães convido-vos a visualizar um vídeo que fiz em1992 sobre o ultimo moinho do Antuã em funcionamento nessa altura .
Trata-se do moinho situado no lugar antigamente denominado da “Marca”, que designava a fronteira entre Cucujães e S.Tiago de Riba-Ul, na estrada de Vila Cova, junto à ponte (romana ou mourisca) que liga as duas margens do Antuã ...
As condições de higiene da produção nao seguirão certamente as normas actuais da UE... ...mas o processo é certamente “biológico”...
A qualidade do vídeo também deixa a desejar mas “quem dá o que tem”...
Aqui vai o “site” : http://www.youtube.com/watch?v=fwV8Ibmcoo0

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manloca
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« Responder #3 em: 17 de Dezembro de 2008, 02:29:48 »

Tenho também informação de que o moinho do Sr. Alberto “Moleiro”, situado na confluência dos rios Antuã e Cercal foi total e profissionalmente reconstituído e retomou o aspecto dos seus anos de gloria...
É uma pagina na historia da vila de Couto de Cucujães de que todos devemos orgulhar-nos e agradecer a iniciativa daqueles que o preservaram.

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Alexandre
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« Responder #4 em: 21 de Dezembro de 2008, 20:08:35 »

Apesar de tudo o que já foi escrito, discutido, dito, e redito o equívoco persiste teimosamente em manter-se. 
O rio que entra na Vila de Cucujães no lugar da Margonça vindo de Norte é o Rio UL, já existe muita documentação a cerca disto mas teimosamente continuam a querer chamar rio Antuã.
Logo que eu tenha tempo vou colocar aqui um conjunto de literatura sobre o tema para quem quiser se dar ao trabalho de ler.
Recentemente o município de S. João da Madeira, efectuou uma apurada pesquisa e discussão publica sobre o assunto, tendo ficado mais que claro e evidente que o rio é o UL e assim foi efectuada uma resolução municipal para ser corrigido em todos os locais a indicação do rio para rio Ul e toda a documentação a produzir identifique o rio como Ul.
Lamentavelmente o município de Oliveira de Azeméis, nada fez nem faz para corrigir as placas indicadoras ou cartografia, sendo caricato a vezes aparece a indicação de Rio Antuã e Rio Ul quase lado a lado.
Este rio passa nas freguesias de Santiago de Riba Ul, e Ul. Porque será que se chamam assim? Será por o rio se chamar Antuã?
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Alexandre
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« Responder #5 em: 21 de Dezembro de 2008, 20:13:40 »

Fica aqui mais uma vez alguma literatura disponivel sobre Cucujães, mas existe outra, e artigos soltos publicados em jornais, mas nunca compilados.

Em alguns destes são feitas referencias aos rios.

"Museu Arqueológico e Etnográfico de Cucujães" - João Domingues Arêde - 1935

"Cucujães e Mosteiro com o seu Couto nos tempos Medievais e Modernos" - João Domingues Arêde - 1922

"Oliveira de Azeméis e Freguesias entre os Rios Antuã e Ul na Visitação de 1769" - Samuel de Bastos Oliveira - 1992

"Annaes do Município de Oliveira de Azeméis" -  1909

"Alminhas e Capelinhas da Freguesia  da Vila de Cucujães" - Corpo Nacional de Escutas Agr.24 - 1993

"Cucujães - A Vida de uma terra por dentro" - Corpo Nacional de Escutas Agr.24 – 1993

"Memorias Setecentistas do Concelho de Oliveira de Azeméis" - Samuel de Bastos Oliveira - 2001

"Cucujães, uma terra que já foi couto" - Escola Basica Dr. Ferreira da Silva - 2002

"Património Imóvel da Vila de Cucujães" - Junta de Freguesia da Vila de Cucujães e Corpo Nacional de Escutas Agr. 24 - 2005

"S. Martinho de Cucujães - de Mosteiro Beneditino a Seminário das Missões" - Joaquim Candeias da Silva - 2005
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