Sexta-feira, 10 Fevereiro 2012
Actualização Diária | Registo ERC N° 125226 | Director: Fábio Silva

Os líderes precoces das nossas escolas

Texto
Vivemos uma época em que se constata a falta de líderes em Portugal e no mundo ou não será esta uma falsa questão porque estes existem mas coíbem-se de assumir lideranças, porque ser líder nas democracias é um risco que não compensa, porque muitas forças se conjugam para tornarem difícil a vida dos líderes.
Invejas, maledicências e julgamentos populares tornam, de facto, muito difícil que surjam candidatos a líderes. De qualquer modo e por causa e efeito, começamos a revelar uma falta de capacidade para desenvolvermos formas e culturas de liderança não incutindo nos candidatos a apetência para a aquisição duma cultura de liderança. Por outro lado, os nossos jovens não sentem motivação para esses sacrifícios, tão aliciados estão com outros apelos principalmente para a “cultura do laser e do consumismo”. Constatamos, contudo o aparecimento de “líderes” juvenis, isto é, jovens entre os doze e os quinze anos que tem liderado acções de protesto estudantis bastante ousadas para as suas idades e que a mim, pessoalmente, me surpreendem ou talvez não, tal é a anarquia reinante no sector da educação. Em vários pontos do país já se verificaram acções juvenis de fecho a cadeado dos portões das escolas e, em ambas as situações, um pequeno grupo de alunos impediram a entrada dos seus colegas. Numa escola, nos arredores de Lisboa, estes enfrentaram mesmo as forças da polícia chamada para desbloquear aquela situação. Noutra, esta em Fafe, os alunos da mesma faixa etária, receberam a ministra da educação com apupos e o lançamento de ovos e tomates àquela representante do governo, impedindo-a que entrasse naquela escola para presidir a uma cerimónia de entrega de diplomas a alunos bem mais velhos (formandos do programa “novas oportunidades”, aqueles que “voltaram à escola” e que terão desta uma postura e uma consideração bem diferente daqueles jovens, até por força das respectivas idades e responsabilidades). Segundo a imprensa, cerca de duas centenas e meia de alunos “divertiram-se à grande” com aquele espectáculo para o qual foram convocados através de SMS. Estas “cenas” de protesto, com acções do mesmo género, estudantil têm-se repetido por várias escolas do país.

Comecei esta crónica com uma abordagem sobre os líderes e ou a falta deles e as consequências para as organizações e para os próprios países, face à sua escassez, mas o meu objectivo é fazer a ponte para estas formas de lideranças juvenis na actualidade e na nossa sociedade, como são os exemplos aqui citados e às quais poderíamos acrescentar os líderes de “gangues” juvenis que por aí andam no “mundo do crime”, lideranças estas que bem dispensaríamos. Obviamente que fico muito preocupado com estas acções porque elas revelam que o nosso modelo de educação e formação caminha para o “fundo do poço”, apesar de haver muita gente que entende que estes são actos próprios da juventude e riem-se ou olham para o lado! Serão democráticas estas acções lideradas e assumidas por jovens cuja maturidade e conhecimentos não estão ainda formadas? Como é possível que tal aconteça e que força terão eles para ousarem assumir este tipo de acções? Que sociedade é esta que “tolera” tudo isto? Atirar ovos, tomates, chamar nomes pejorativos e ofensivos e outras acções a governantes democraticamente eleitos serão gestos de gente educada e bem formada, mesmo em sinal de protesto, por muitas razões de queixa que eventualmente tenham? E o que dizer se estes gestos forem da autoria de crianças e jovens que temos a obrigação de educar e formar? Quem lhe serve de modelo nesses actos e gestos e quem se demite dessa responsabilidade? Onde estão os responsáveis pela educação desses “líderes e dos seus seguidores”? Será que os pais, os professores e as associações de pais fazem como Pilatos e “lavam daí as suas mãos”? E as autoridades governamentais que também elas se demitem dessa função permitindo todo o tipo de manifestações com ofensas pessoais e funcionais intoleráveis para um país que se pretende democrático e evoluído? Há membros deste governo, incluindo o PM, que não são livres de se deslocarem a qualquer lugar, em desempenho das suas legítimas e democráticas funções, sem que sejam enxovalhados por manifestantes que perderam o respeito à democracia e às instituições. Não serão crime este tipo de ofensas? Confesso que, como cidadão, me entristece e revolta este tipo de acções ainda mais se forem crianças e jovens os seus actores. Ousemos perguntar-lhes que tipo de escola querem ou melhor, se querem mesmo frequentar a escola e também que matérias e programas escolares querem eles aprender e que outras regalias desejam para “fazerem o favor de aprenderem”. Proponho que sejam eles a escolher tudo o que desejam mesmo para alem da vida escolar e faça-se o mesmo em casa, aliás, como já alguns educadores fazem para não se arriscarem a ouvir dos seus educandos o mesmo tipo de manifestações e de “mimos verbais” que estes utilizam contra os “donos da escola”. Que educação lhes estamos a transmitir e se nos demitirmos da nossa responsabilidade, que é grande nesta matéria, que cidadãos estaremos a formar e que consequências daí advirão para a nossa sociedade e o nosso futuro? E no meio de tudo isto, o cidadão contribuinte paga para que a escola pública continue a afundar-se, salvo raras e honrosas excepções, tal como muitos heróicos agentes educadores (professores, auxiliares, etc.) que acabam por sentir as frustrações e a impotência de remarem contra esta maré de indisciplina reinante. Assim, caminhamos, na educação, alegremente para a cauda do pelotão das sociedades desenvolvidas, com graves consequências para o nosso país e para a nossa vida em sociedade.

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