Quarta-feira, 08 Setembro 2010
   
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Quando eu era menino, (não) havia Natal?

Quando eu era menino, era (muito) pobre e, para mim, o Natal era um “luxo” dos outros meninos, ricos ou remediados. Havia na igreja da minha aldeia, um presépio muito bonito e no qual estava um menino que tinha nascido tão pobre quanto eu, porque também eu nasci numa “manjedoura” e no dia do Seu aniversário de nascimento (25 de Dezembro), celebrava-se esse acontecimento e o padre “dava-nos” a beijá-lo, nu como tinha nascido, tal como todos nós, residindo aí a única igualdade entre pobres e ricos, isto é, nascermos nus.

 

Tal como Jesus, menino entretanto feito homem e do qual não se conhece a sua vida na fase da idade da adolescência e da juventude, segundo as escrituras e das quais muito pouco sei, também eu fui “promovido”, prematuramente, a homem muito cedo e parti, por este mundo, deixando o a minha aldeia beirã, tal como Jesus o fez, onde nasci e cresci até aos onze anos. Não parti para pregar a doutrina do bem, do amor e da fraternidade entre todos os seres humanos, mas sim para lutar contra a “fatalidade” de ter nascido pobre e pobre poder vir a ser toda a vida, se cruzasse os braços e me resignasse.  

Se Cristo lutou contra os “adversários”, ao ponto de ser condenado e crucificado, também eu lutei contra muitas adversidades e sofrimentos, mas pé antes pé, fui vencendo cada etapa da vida e deixei de ser pobre, material e culturalmente falando. Fui, na escola (real), mas também na dureza da vida, por vezes a melhor escola, aprendendo a ser homem e fui vencendo. Fiz-me homem e atingi a “riqueza”, não a riqueza material de que se fala e que cega muita gente, mas uma certa “riqueza” assente na realização pessoal e profissional, pelo que me posso considerar um privilegiado, colhendo os frutos de muita luta e maiores sacrifícios. Contudo, o desgaste dessa luta também apareceu para me fazer companhia ou me transmitir a mensagem de quão frágil é esta nossa vida e, por isso, aprendi ainda mais os valores de que nós, os seres humanos, deveríamos praticar e ver nos outros, seres como nós, uns mais ricos e outros mais pobres, mas todos filhos de um Deus Maior que, por vezes, parece esquecer-se daqueles que sofrem.  

Olhando em redor, num horizonte global, fico magoado por ver que, a final, a doutrina de Cristo, que é (deveria ser) uma referência mesmo para aqueles que não acreditam ou professam outras religiões, foi sendo substituída, neste últimos tempos, com uma velocidade estonteante, por uma outra “religião” e que se chama “consumismo”. Esta, que em vez de pregar a fraternidade entre os humanos, faz apelo a outros valores que nos tornam, nós humanos, menos sensíveis aos problemas dos outros e nos deixam mais pobres, apesar de materialmente falando nunca a sociedade ocidental ter tido um nível de vida como o actual. O natal (este novo natal) até começa cada vez mais cedo, por efeito também das acções e da força do Marketing, mas também porque muito cedo, crianças, jovens e adultos começam a desejar que esse natal chegue depressa. Que pobres que nós somos, apesar de cada vez mais estarmos rodeados de bens materiais (somos ricos, por isso?), muitos dos quais acabam por ser inutilidades e desperdícios! E no meio de tudo isto, tanta hipocrisia e tanta frieza em torno dum período que deveria ser de doze meses em cada anos de fraternidade, de solidariedade e de paz e amor. Paradoxalmente, comemoramos um aniversário e não “convidamos” o aniversariante e pensarmos na força e na actualidade das Suas mensagens e, meditando nelas, podermos fazer uma autocrítica dos nossos (novos) valores e dos nossos comportamentos. Quantos de nós não nos sentimos tristes logo no dia 26 de Dezembro e à espera de um outro Natal? Sinto-me “pobre” e perdido neste tipo de natal e fico (muito) triste, mais triste ainda neste período do que durante o resto do ano, porque talvez estejamos a ficar cada vez mais “pobres” e mais frios e isso não nos traz a felicidade e a (outra) riqueza.

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