Crónicas de Lisboa
E agora, cigarra? – Pergunta a formiga
E agora, cigarra? – Pergunta a formiga
Os tempos são de crise, mas a sua extensão e os seus efeitos ainda estão por avaliar ou, dito de outra forma, ninguém sabe se esta já “bateu no fundo” ou se, ao invés, ainda se agravará mais.
Os anúncios sistemáticos de perdas de postos de trabalho, seja por deslocalização das empresas para outros países (agora qualquer pretexto serve), por falta de competitividade ou por efeito da diminuição da procura de bens e serviços tem, como consequência, uma imparável diminuição do volume de emprego até à “estaca zero”. Sem “armar em professor”, permitam-me que (re) lembre, para os menos (in) formados nestas matérias, uma lei básica, em economia: menor procura de bens e serviços provoca menor investimento e este menor emprego e, consequentemente, menor rendimento daqueles que perdem o seu salário; por força disso, a procura de bens e serviços desce e o ciclo vai andando para trás até que o sistema volte a arrancar, isto é, a procura gera>> investimento>> paga salários, impostos e lucros e gera, assim, rendimento>> que são gastos na procura (compra) de bens e serviços> .......( assim em circulo) até que tudo volte a estar em equilíbrio, mas sendo desejável, porque a sociedade moderna se habituou a este modelo, em crescimento. É por isso que a inflação (controlada) é benéfica, porque cria a ilusão de “ganhos”, mas a deflação assusta os agentes económicos, porque “faz a máquina andar para trás”.
Se neste contra ciclo económico, como este que agora vivemos, algumas empresas ainda resistirão, e poderão retomar o ciclo da recuperação e a sua actividade normal depois desta “tempestade”, muitas outras não irão resistir e fecharão as suas portas, com consequências no agravamento do desemprego. Tal como uma tempestade tem o benefício de depurar a floresta, limpando-a das árvores doentes e mortas, também esta crise económica pode ser aproveitada para eliminar do tecido económico e empresarial as unidades mal preparadas e ultrapassadas. E os maus empresários e gestores e os maus trabalhadores? Quanto aos primeiros, estes serão banidos pela implacável concorrência, agora sem as barreiras derrubadas pela globalização, porque só os melhores sobreviverão nesta turbulência e poderão até aprender com uma crise que a maioria dos vivos nunca presenciou (se a compararmos já com a crise dos anos 30 do século XX). E os maus trabalhadores, será que nesta onda de despedimentos vão ser expulsos das empresas ou vai “pagar o justo pelo pecador”, porque, infelizmente, na maioria das falências aplica-se esta dura realidade?
Enquanto que os Governos e os países vão prescrevendo “aspirinas” à economia doente, porque tardam em encontrar um antídoto eficaz (caem por terra todas as “leis económicas” aplicadas recentemente, porque parece que não surtem o seu efeito), aqueles que foram cigarras nesta acabada “Primavera” de crescimento e bem-estar, passarão agora um mau bocado nas suas vidas. A “desgraçada” da formiga, aquela que aproveitou para se precaver para o “Inverno”, que poderá ser longo, poderia agora rir-se das cigarras, mas, infelizmente, também ela vai sofrer as consequências das nuvens e da tempestade que pairam sobre todos. Contudo, também a reacção e a atitude será diferente. Enquanto que a formiga “arregaçará as mangas” e lutará contra a crise, as cigarras vão exigir aos Governos que lhes resolvam os seus problemas e lhes atribuam mais subsídios e, mais uma vez, agravarão o futuro de todos. A final, “há mais vida para alem do défice”, como muitas cigarras (perdão, muitos políticos – daqueles que nunca fizeram mais nada na vida – nunca foram formigas), contrapunham, há tempos atrás e em resposta às formigas (economistas e alguns políticos), que alertavam que este crónico problema da nossa economia e da nossa sociedade, teria consequências perigosas para todos nós. Elas aí estão, agora que vai ser mesmo necessário “abrir os cordões à bolsa” atribuindo toda uma panóplia de subsídios (com o consequente agravamento do défice e endividamento público, não só por efeito do aumento desses subsídios, mas também pela diminuição das receitas provindas dos impostos) para diminuir os graves problemas sociais provocados por esta crise que começou por ser financeira mas agora já é também económica e poderá descambar num crise social de imprevisíveis efeitos.
E agora, cigarra, perguntará a formiga? Para manter a economia viva e activa, pede-se a ambas que não percam a confiança e continuem a consumir, porque esta é uma “lei da economia” (em que a despesa de uns é a receita/rendimento de outros e assim se gera e distribui riqueza), mas enquanto que a cigarra tem esse “espírito consumista” e não hesitará em agravar o seu já elevado endividamento (não terá sido o crédito descontrolado e excessivo – mas em que o crédito é e foi imprescindível, desde há séculos, ao desenvolvimento económico - o causador desta crise financeira e que se reflectiu numa crise económica?), a martirizada formiga tenderá a poupar tudo o que puder, porque não pode adivinhar se o “Inverno” vai ser longo e dele tem medo, negando a “lei” atrás enunciada e contribuindo para o período de recessão que já estamos a sentir. O fantasma ou a realidade do desemprego, que não pára de aumentar, terá terríveis consequências. Que todos, cigarras e formigas, sejamos fortes e aproveitemos esta crise como lição para o nosso futuro, individual e colectivo.
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