Crónicas de Lisboa
Triste é a (nossa) velhice?
Triste é a (nossa) velhice?
Vivemos numa época e num país onde os “velhos são trapos”, escondidos e, como tal, também esquecidos, muitos deles em casa ou “depositados” nos “armazéns de velhos” a que, pomposamente, muitos chamam de “lares de idosos”. Após a morte, aos mais conhecidos (as chamadas figuras públicas) são prestadas homenagens que, na maioria das situações, “cheiram a falso” e são dum grande oportunismo mediático. Há dias, assistimos a um descarado aproveitamento deste tipo de acontecimentos, pois até o cortejo fúnebre foi transmitido em directo pelas televisões, com a morte do actor Raul Solnado, alem das muitas horas de emissão, em volta do seu falecimento. Fiquei triste, com o “espectáculo” até porque aquele homem há muito que tinha sido esquecido dos holofotes das cenas e arredado dos “medias”, aqueles que se “aproveitaram do espectáculo da sua morte”.
A Antena 1 dedicou-lhe um programa na semana anterior ao seu falecimento e, por sorte, ouvi partes do programa e retive dele uma afirmação em que dizia que “se sentia triste pela velhice” e de não poder trabalhar (paradoxalmente, usou a palavra “triste” em oposição a uma sua famosa mensagem: ”façam o favor de serem felizes”.
Alguns dias depois, presenciei uma cena que me fez humedecer os meus olhos (aqueles que são as “vistas da nossa alma”), e um misto de “tristeza e de medo” apoderou-se de mim, antevendo a velhice que poderei alcançar (embora os dois enfartes que me atingiram me deixam poucas esperanças de chegar a velho). Numa manhã deste quente mês de Agosto e numa esplanada num local maravilhoso à beira-mar (nos arredores de Lisboa) estava um grupo de idosos que para ali foram levados, num “passeio higiénico”, pela instituição onde são “hóspedes” (num “lar de velhos”?). Quase silenciosamente, todos olhavam na mesma direcção, podendo abarcar o rio Tejo, ali já como mar, e a ponte e o monumento do Cristo Rei, se as sua visão lhes permitisse desfrutar a imensidão daquele horizonte cheio de luz e dum forte azul marinho.
Abstraí-me de tudo e, por alguns minutos, concentrei os meus olhares naquelas criaturas (homens e mulheres), todas elas com idades para cima dos setenta anos e tentei “ler” naquelas posturas silenciosas e inamovíveis, quase parecendo estátuas sentadas, e nos seus olhares o que lhes iria na alma. Confesso que tive pena de não lhes ter perscrutado os sentimentos, tentado saber o que aqueles seres humanos, em final de vida, sentiam naquele momento e naquele cenário de “encher a alma” aos mais sensíveis. Naqueles minutos, apoderou-se de mim uma grande tristeza e senti mesmo a ameaça duma lágrima a querer sair e, por isso, preferi fugir, porque aquela “cena” era demasiado forte para o meu coração doente.
Não sei quantos anos me faltarão para “ser velho” (nem sei se lá chegarei, por força da minha baixa esperança de vida, pelas razões atrás citadas), mas confesso que me preocupo muito com essa fase das nossas vidas, agora que graças à medicina e a outros factores, a “velhice” pode chegar mais tarde e ser também mais longa. Os “centenários” são, cada vez em maior número e até o conceito e o período de “terceira idade” se vai afastando no nosso relógio do tempo.
Por razões várias, a população “sénior” cresce em número e em longevidade, por oposição à baixa natalidade, pelo que o seu futuro não augura nada de bom, num país (não só no nosso) onde os apoios têm sido concentrados nas crianças e nos jovens, alguns já nada têm de jovens e que vivem num “ócio parasita” permanente, esquecendo-se os “velhos”, aqueles que geraram riqueza para o país. Na falta duma política adequada, pululam por aí autênticos “depósitos de velhos” a que chamam “casas de repouso”, “lares de idosos”, etc. Obviamente que há excelentes exemplos, mas, infelizmente, muitos deles são “antecâmaras de morte” para aqueles cujas famílias não podem ou não querem cuidar deles, como era prática nas famílias tradicionais e em tempos idos (não muito “longínquos”).
Há muitos anos que não entro num “lar de idosos”, porque se o fizesse não sei se aguentaria tal violência psicológica, sem esquecer as condições por vezes desumanas dos “residentes”, porque a cena que presenciei na esplanada e outras semelhantes que vamos vendo por aí, são suficientes para me deixarem profundamente triste e mais triste ainda por verificar que ”este país não é para velhos” porque muito pouco se faz por eles (nós). Por isso, é tempo de todos (Estado e demais instituições e famílias) olharmos para os “seniores” (nome mais bonito e sem a carga pejorativa de “velhos”) porque essa pode ser uma etapa que muitos de nós alcançaremos. Mas será que cada um de nós sabe preparar-se para a “velhice”? E serão os nossos filhos culpados da nossa velhice poder ser uma fase de tristeza e de “morte lenta”, por vezes a desejarem que morremos depressa, para se verem livres do “fardo” que os seus progenitores são, para eles e para a sociedade? “Filho és, pai serás. Como fizeres, assim receberás”. É que também somos ou fomos filhos e estas condições e atitudes são uma “herança” que vem passando de geração em geração, desfeita que foi a organização familiar assente em gerações auto sustentadas e onde coabitavam, no mesmo lar (ou na mesma rua, aldeia, vila ou cidade – hoje cada vez mais dispersos) pais, filhos e netos regenerando essa estrutura. Nascia-se e morria-se na mesma casa e hoje até a morte é escondida aos netos! Acima de tudo, a “culpa” é da nova organização das sociedades ocidentais onde nos transformámos em “descartáveis e pesos mortos” (e absorvedores de recursos), se deixarmos de produzir ou até de alimentar com o mesmo frenesim a sociedade materialista e de consumo que criámos e estamos a manter ou a fazer crescer (a percentagem crescente dos “seniores”, muitos deles com um bom poder de compra, está a criar um mercado de produtos e serviços diferente e para o qual muitas empresas ainda não dedicaram a devida atenção, tão concentradas estão com os “jovens” e os “activos”).
Contudo, triste será a nossa velhice, se nada fizermos para alterar a situação actual e futura. E é tanto o que pode e deve ser feito!
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