Quinta-feira, 09 Fevereiro 2012
Actualização Diária | Registo ERC N° 125226 | Director: Fábio Silva

“Os interesses do país ou dos partidos?”

Texto

Sou adepto do Sporting, mas quando outro clube português joga contra uma equipa estrangeira, torço pela equipa portuguesa, seja ela o Benfica, o Porto ou outra, como se fosse o meu clube. Ajo emocional e racionalmente porque é uma equipa portuguesa que está em confronto com uma estrangeira e, desse modo, o resultado afectará, directa ou indirectamente, as outras equipas portuguesas, incluindo a da minha simpatia.

Infelizmente, são milhares, se não mesmo milhões, os adeptos portugueses que não pensam assim, isto é, “exportam” para esses confrontos a rivalidade clubística interna e vibram com a derrota do rival português. Este não é um comportamento único dos portugueses, porque acontece noutras latitudes, mas aí assenta, essencialmente, em rivalidades político-regionais e que, como tal, vão para alem do futebol. Por exemplo, Madrid vs Barcelona, para só citar este bem perto de nós.

Porque os três “grandes” clubes portugueses estão envolvidos em competição com equipas estrangeiras, na actualidade, este tema está na ordem do dia, mas apesar do futebol ter demasiado peso nas vidas dos portugueses, o que me preocupa mais, como português, é o “campeonato dos partidos políticos”. Nessa “luta” há coisas muito mais importantes do que o futebol, com esse podemos nós bem, porque apesar da nossa democracia já ter mais de trinta anos, os políticos e os partidos ainda se comportam como fossem clubes de futebol. Assim, as semelhanças nas “lutas” e nos comportamentos são muito grandes ao que se passa nas “competições” entre os “grandes” clubes e nem os objectivos são assim tão diferentes, porque os partidos estão mais interessados em ganhar “o campeonato das eleições”, mas também os “jogos partidários diários”, do que trabalharem para que o vencedor seja Portugal e os portugueses, a razão de ser da democracia e dos partidos democráticos portugueses. Mas numa democracia adulta e ao serviço dos cidadãos, será que tem que haver vencidos como no futebol, ao ponto de sermos levados a pensar que o que mais lhes interessa, nessa “luta”, por vezes sem olhar a meios para atingir os fins (atingir o adversário), não é o interesse do país mas sim a derrota do (s) partido (s) adversário (s), mais parecendo uma luta entre o Benfica vs Sporting (Porto)?

Para que isso fosse diferente, os partidos deveriam inverter a ordem da importância que atribuem ao próprio partido e aos seus quadros políticos (como se fosse um clube), à democracia e ao país, mas, infelizmente, a prática, destas mais de três décadas da democracia portuguesa, tem-nos mostrado que em primeiro lugar está o partido e os políticos, em segundo a democracia e só em terceiro estão os interesses do país e dos portugueses.

Exagero? Veja-se, como um dos muitos exemplos, o que se passou recentemente acerca da reeleição de Durão Barroso para Presidente da Comissão Europeia, em que vários partidos portugueses e políticos se manifestaram publicamente contra essa reeleição (alguns votaram contra ou abstiveram-se) afirmando que Portugal nada ganhava por ter um português naquele importante cargo europeu. Será que a “cegueira pelos interesses partidários”, acima de tudo, não os deixa ver que é prestigiante para um país (ainda mais pequenino como o nosso) e para todos nós, termos dirigentes portugueses em lugares europeus e mundiais, como é o caso de Durão Barroso, António Guterres (Alto Comissário da ONU para os Refugiados) e Jorge Sampaio (Alto Representante da ONU para as Civilizações), para só citar estes? Não há “ganhos” para o país, mesmo que indirectos?

O que me deixa mais triste no meio destes comportamentos é que alguns (políticos) portugueses não se importariam de “vender a pátria” (*), se daí resultassem ganhos para os seus clubes, perdão, para os seus partidos. Obviamente que as opiniões mais relevantes e as abstenções vieram de políticos do partido que é o principal “adversário” daquele a que pertence(u) Durão Barroso, mas não emitiram a mesma opinião no que diz respeito aos cargos (com menor poder de interferência nos interesses para o nosso país) que desempenham António Guterres e Jorge Sampaio, porque são do mesmo partido! Esses já são prestigiantes para o nosso país!

E o que dizer dos futebolistas como Luis Figo, Cristiano Ronaldo e do treinador José Mourinho, etc, voltando às “comparações” com o futebol? Também aqui não há “ganhos” para o nosso país, mesmo que indirectos, num país cuja imagem no exterior não é das melhores? Aqueles políticos e estes desportistas, incluindo muitos cientistas, gestores, professores e muitas outras profissões em várias áreas, mostram que Portugal também pode “dar ao mundo grandes homens” (e mulheres). Infelizmente, e este parece ser o nosso maior defeito, a INVEJA é muito grande “entre muros” pelo que muitos portugueses só verão o seu valor reconhecido se emigrarem e aí sim o país pode perder mais do que ganha. Alguns fazem-no por “cansaço” com esta “política à portuguesa”, mas isso os tais políticos “vende pátria” não vêem ou para eles até é melhor que partam, porque deixam de ter adversários.

Que me perdoem aqueles que não gostam de futebol, mas existem ou não, no nosso país, muitas semelhanças entre a luta clubistica e a as lutas partidárias? Sinto muito que assim seja, porque nesse “campeonato” (absurdo) perde o país que os sustenta (os partidos). Quando estes escritos forem publicados neste jornal já decorreram as eleições legislativas e muitas festas de vitória (partidária) foram feitas com arromba, mas eivadas duma certa “vingança” nos adversários partidários derrotados no sufrágio desse dia. Mas e Portugal, ainda mais neste período de crise económica, perdeu ou ganhará com o “campeão da luta dos partidos”? Num país com problemas económicos, na educação, na justiça, na segurança, etc, tec, não deveriam os partidos deixar de lado as lutas (entre eles) pelas minudências e “unirem-se”, por Portugal, para que este fosse o ganhador?

Viva Portugal, os portugueses, a democracia e os partidos (que não são os “donos” da democracia e do país), por esta (minha) ordem. “Em vez de só exigires ao teu país, o que fazes tu por ele?”

(*) “A pátria não se vende; a pátria se defende”

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