Crónicas de Lisboa
O Valor de Uma Crítica ou de Um Protesto
O Valor de Uma Crítica ou de Um Protesto
“Prefiro aqueles que me criticam, porque me corrigem, em vez daqueles que só me elogiam, porque estes corrompem-me”. Esta frase tem séculos de existência e foi atribuída a Santo Agostinho que viveu no século IV, mas poderemos adaptá-la ao nosso quotidiano quer na nossa vida familiar, profissional e social.
É claro que ninguém gosta de ser criticado e ficará verdadeiramente sentido se aquele que o crítica não utilizar os meios, os modos e o “timing” de forma correcta. Se assim não o fizer, a crítica, em vez de formativa e informativa, pode ser destrutiva e não incentivadora ao desenvolvimento de melhorias para ambos, mas principalmente para aquele a quem se destina.
Se é verdade a premissa anterior, também o é para aqueles que deveriam fazer uma crítica pois é , extremamente incómodo criticar outro, porque daí poderão advir inimizades e problemas. Assim, para a maioria de nós é muito mais “gratificante” fazer um elogio do que uma crítica e ficamos “inchados” e “embriagados” quando nos fazem um elogio que, por vezes, nem nos apercebemos, como disse Santo Agostinho, que estamos a ser “corrompidos” no nosso comportamento e desempenho.
Um elogio justo é de um valor muito grande para nós, que o recebemos, mas o valor de uma crítica justa poderá ainda ser maior porque, se bem recebida e compreendida por nós, permitirá que corrijamos os nossos defeitos e melhoremos as nossas qualidades. O efeito de um e de outro, isto é, duma crítica ou de um elogio, dependerá do grau de auto estima do destinatário, mas também da autoridade moral de quem os emite.
A crítica construtiva, faz parte do nosso papel de educadores e formadores, mas se abdicarmos deste papel não estaremos a dar o nosso contributo para a melhoria dos comportamentos daqueles com quem interagimos (familiares, amigos, colegas, etc).Veja-se, por exemplo, o nosso papel de pais, para compreendermos, facilmente, a importância duma crítica justa, coerente e oportuna na tarefa formativa e educativa dos nossos filhos. Sabemos, contudo, que dizer não a um filho, por exemplo, ou fazer-lhe uma crítica, pode criar-nos grandes dissabores, pelo que é mais cómodo “fazer de conta” que está tudo bem. A final, o que são “pais bons””?. O que educam, sendo exigentes, ou os “lascivos” e que tudo permitem, sem avaliarem que estão a ser ““embriagados” pais maus”?
Na nossa vida social e profissional, a situação é semelhante e, por isso, preferimos fazer um elogio, mesmo que hipócrita, em vez de uma crítica justa e construtiva. Contudo, com este comportamento, poderemos estar a abdicar dos nossos direitos de consumidor e cidadão. Quantos de nós ousamos criticar um fornecedor, por exemplo, quando somos mal atendidos ou ofendidos por um dos seus trabalhadores? Preferimos esquecê-lo e não voltarmos lá, a darmo-nos ao incómodo de o criticar/protestar, reagimos nós, quase sempre, em situações deste tipo. Na actividade empresarial, existem livros de reclamação (nalgumas actividades obrigatórios por lei) e outras formas para expressarmos as críticas ou protestar (linha verde, etc), mas existe hoje também uma ferramenta muito poderosa que é o correio electrónico e a Internet através da qual o poderemos fazer mais comodamente e sem os riscos de sermos mal tratados, como infelizmente acontece por vezes e nalguns lados. Os direitos do utilizador/consumidor não devem ser palavras vãs dos agentes económicos, mas também exercidas por aqueles.
Em síntese, uma crítica ou um elogio podem ser muito importantes para nós mas pressupõe que estejamos preparados para as darmos e ou recebermos. Pensemos na citação de S. Agostinho, aqui transcrita, e do grande alcance que o seu conteúdo tem na educação e na formação cívica e humana actual.
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